Desde o início da Segunda Guerra Mundial o Brasil procurou manter uma posição de eqüidistância com a Alemanha e com os Estados Unidos, camuflada sob o manto da neutralidade em relação à guerra. Procurava-se garantir para o páis um processo de desenvolvimento que se beneficiasse do confronto entre as potências, não considerando suas posições antagônicas e levando em conta apenas e tão somente os interesses brasileiros.

"O Brasil não é inglês nem alemão. É um país soberano que exige respeito às suas leis e que defende seus interesses. O Brasil é brasileiro."

Getúlio Vargas - 1940

O Brasil possuía uma posição estratégica importante tanto para os Estados Unidos como para a Alemanha. O Nordeste representava verdadeiro "trampolim para a áfrica" para os americanos, além de permitir a instalação de bases avançadas de defesa. A Alemanha tinha interesse em dificultar a ação dos americanos em favor dos Aliados e, pelo menos durante o primeiro ano de guerra, tinham pretensões de ameaçar a hegemonia americana sobe os países latinos, inclusive efetuando operações de desembarque assim que completasse o domínio sobre o norte da áfrica. Diante dessa realiade, Vargas desenvolveu uma política pendular, que tendia ora para um lado, ora para outro, de acordo com os interesses brasileiros. Sem alinhamento com nenhum dos dois, acabou conseguindo benefícios de ambos.

As relações com o Eixo

Antes da guerra, o relacionamento com o Eixo, especialmente com a Alemanha, vinha apresentando um crescimento sustentado. Mesmo após alguns incidentes diplomáticos, como a desastrosa proposta do embaixador alemão Karl Ritter, em 1938, de legalizar o Partido Nazista no Brasil, o Brasil mostrava interesse em manter relações cordiais com a Alemanha. Provas desse interesse eram o contrato com a Krupp, indústria de armamentos, e os contatos iniciais para financiamento de siderúrgicas. A Alemanha, por sua vez, tinha forte interesse em manter as trocas comerciais e evitar qualquer posicionamento anti-alemão por parte do Brasil.

Com a Itália, havia relações diplomáticas normais, através das quais se estabeleceram negociações tanto na área militar quanto na civil.

A invasão da Polônia, em 1° de setembro de 1939, reverteu este quadro, reduindo drasticamente o fluxo comercial entre o Brasil e os países do Eixo, influenciando fortemente a opinião pública nacional, gerando pressões internas que Getúlio Vargas habilmente administrou até o rompimento das relações.

As relações com os Estados Unidos

O governo americano procurava garantir para si o apoio dos países latino-americanos caso o conflito se estendesse para além das fronteiras Européias em direção às Américas. Para isso,promoveu a realização de uma série de conferências interamericanas como:

  • Conferência de Buenos Aires (1936): Foi estabelecido o princípio de que a ameaça a qualquer nação americana seria considerada uma ameaça ao conjunto das nações do continente. Além disso, foi aprovada a criação de um mecanismo de consulta entre as repúblicas que imprimiria maior rapidez a uma resposta conjunta diante de uma eventual ameaça.
  • Conferência de Lima (1938): O sistema de consultas, aprovado em 1936, foi ampliado.
  • Conferência do Panamá (1939): Foi declarada a neutralidade das repúblicas americanas diante da guerra na Europa.
  • Conferência de Havana (1940): Foi afirmada a solidariedade mútua dos países americanos em caso de agressão externa a qualquer país do continente.

Visando especificamente ao apoio brasileiro, o presidente Roosevelt favoreceu a ida aos Estados Unidos da Missão Aranha e a assinatura de uma série de acordos, que previam a concessão de créditos ao Brasil em troca do compromisso do governo brasileiro de regularizar o pagamento das dívidas e das remessas de lucros. Além disso, Washington iniciou ferrenha batalha contra a forte presença germânica no contintente latino-americano em geral, e no Brasil em particular, através de uma ofensiva político-ideológica sem precedentes na história das suas relações. Na expressão cunhada pelo historiador Gerson Moura, era o Tio Sam que chegava ao Brasil para fazer frente ao fantasma do Eixo.

O relacionamento com os Estados Unidos também conheceu pontos de fricção importantes no que diz respeito às trocas comerciais e também à dívidas externa, ao rearmamento e ao esforço de industrialização brasileiros. Por outro lado, viveu fases de convergência que culminaram com a participação conjunta no esforço de guerra. Nem mesmo a implantação do Estado Novo, com uma nova Constituição de inspiração claramente fascista e nacionalizante, abalou as relações com os americanos. A eclosão da guerra acelerou o processo de aproximação com os Estados Unidos e, posteriormente, o financiamento do projeto siderúrgico brasileiro e a regularização dos fornecimentos militares completaram um quadro de franca cooperação.

O rompimento

Quando do incidente que resultou na destruição do couraçado alemão Admiral Graf Spee por navios ingleses nas costas uruguaias, o Brasil juntou seu protesto ao das nações americanas. Afirmava-se que se o Brasil interviesse em qualquer controvérsia, o faria de comum acordo com as nações americanas.

A neutralidade brasileira, ainda que reconhecida pelo Eixo, passou a apresentar dificuldades de reconhecimento a partir do instante em que a Panair iniciou a construção de aeródromos ao longo do litoral brasileiro. Ficou mais difícil ainda depois do ataque japonês a Pearl Harbor, em 07/12/41, quando o Brasil, tendo em vista os compromissos assumidos desde a Conferência de Havana, declarou solidariedade aos Estados Unidos e aprovou medidas para silenciar estações de rádio clandestinas, divulgando propaganda do eixo.

Convocada por Washington em seguida ao ataque japonês a Pearl Harbor, em dezembro de 1941, III Reunião de Consulta dos Ministros das Relações Exteriores das Repúblicas Americanas realizou-se no palácio Tiradentes, no Rio de Janeiro, de 15 a 28 de janeiro de 1942. O principal objetivo da reunião era a aprovação unânime de uma resolução de rompimento imediato de relações diplomáticas e comerciais dos países americanos com o Eixo. Ao final, por força da recusa argentina e chilena em firmar tal posição, foi aprovada uma resolução que apenas recomendava o rompimento de relações. O Governo Norte-Americano pressionava pelo rompimento imediato das relações diplomáticas, mas Getúlio sabia que isso significaria um imediato estado de guerra com o Eixo. A indefinição da posição da Argentina também era preocupante, já que caso esta viesse a apoiar o Eixo abriria-se nova frente de combate no sul do país.

De toda forma, a conferência logrou a aprovação de uma série de resoluções que consolidavam a colaboração dos países do continente com os esforços de guerra dos Estados Unidos. Os países latino-americanos se prometeram fornecer matérias-primas estratégicas para a indústria bélica norte-americana, criar condições propícias ao livre movimento de capitais e manter a ordem interna para evitar a alteração de compromissos políticos assumidos com os Estados Unidos.

O fato de não ter havido qualquer compromisso na área militar gerou insatisfação em setores das Forças Armadas brasileiras interessados em participar militarmente no conflito mundial ao lado dos Aliados. A resolução a respeito limitava-se a criar uma agência de estudos sobre a defesa continental, isto é, uma agência que visava a encorajar a solidariedade hemisférica no plano militar, mas que não se destinava propriamente a assumir funções relevantes de defesa da região. Getúlio condicionou o rompimento das relações com o Eixo ao compromisso norteamericano de fornecimento de armas e equipamento mecanizado às Forças Armadas Brasileiras, da garantia de proteção militar caso necessário e solução para o impasse Argentino.

Como parte de sua estratégia de negociação do alinhamento brasileiro aos Estados Unidos, Vargas deixou para o último momento o anúncio do rompimento brasileiro com os países do Eixo. Finalmente, tendo obtido do governo Roosevelt o compromisso de reequipar suas Forças Armadas, o Brasil anunciou sua decisão de romper relações diplomáticas com a Alemanha, a Itália e o Japão, no dia de encerramento da Conferência. O preço dessa decisão, entretanto, não tardaria a ser cobrado.

Jambock.com.br - Versão 4 - Março de 2015
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