Apesar de existir uma Ordem Técnica com especificações referentes às cores e marcações ostentadas pelos caças da FAB, pode-se afirmar que nem todas as aeronaves do 1° GAvCa tiveram pintura, insíginas e demais marcas aplicadas conforme o padrão. O ritmo das operações e a necessidade de alta disponibilidade dos Thunderbolts para o combate foram os principais causadores dessas diferenças. Das aeronaves recebidas como reposição, muitas acabaram por vir dos estoques da USAAF e  mantiveram seu acabamento em metal natural, padrão da USAAF. Outras foram perdidas em combate ou acidentes antes mesmo de receberem seus códigos alfanuméricos de identificação de esquadrilha ou a bolacha do Grupo.

Cores

Os 67 Thunderbolts destinados ao 1° Grupo de Aviação de Caça foram enviados diretamente da fábrica da Republic Aviation à Itália já pintados nas cores padrão da Força Aérea Brasileira. Todos ostentavam uma pintura camuflada em Olive-Drab (ANA 613) nas superfícies superiores e Neutral Gray (ANA 603) nas inferiores. Dessas 67 aeronaves destinadas ao grupo, parte seria enviada a Tarquinia para uso em combate enquanto parte permaneceria no depósito em Nápoles, como reposição para as eventuais perdas em combate. Ao receber as primeiras aeronaves, Nero Moura optou por "trocar" uma das aeronaves do Grupo por outra com acabamento em metal natural, dos estoques americanos.

"Quando chegamos no depósito onde nossos aviões estavam sendo montados e entregues ao nosso pessoal, observei que todos eram iguais, mas em um canto havia um diferente. Pensei comigo mesmo: Eu sou o comandante e por que não o meu avião ser diferente dos outros? Perguntei aos americanos se haveria alguma objeção em me ceder o avião prateado. Como eles disseram que não, ele se tornou o avião que utilizei na Itália."

Nero Moura

E assim o P-47D-25-RE de serial 42-26450 tornou-se a primeira aeronave em metal natural a fazer parte do grupo.

Obs.: Não confundir "metal natural" (a chapa metálica estava efetivamente sem pintura alguma) com a pintura em Alumilac (Aluminium Laquer), esta sim uma pintura na cor alumínio, mais fácil de ser mantida em boas condições do que o metal natural, aplicada aos P-47 da FAB no pós-guerra.

Durante a campanha, porém, nem todas as aeronaves acabaram servindo aos seus "donos originais". Alguns dos P-47D originalmente destinados à FAB acabaram sendo retirados do depósito para uso por unidades da USAAF e posteriormente repostos com outros P-47D dos estoques destinados a esta. Ocorre que as aeronaves destinadas à USAAF não eram camufladas e esse é o motivo pelo qual o "Senta a Pua" operou tanto aeronaves camufladas em verde/cinza como aeronaves com acabamento em metal natural.

As aeronaves com acabamento em metal natural tinham por pintura apenas um painel anti-reflexivo ("anti-glare") em olive-drab na parte superior da fuselagem, painel esse com a função de evitar que a luz do sol refletisse na chapa metálica e ofuscasse o piloto. Esse painel ia da extemidade anterior da carenagem do motor até o bordo de ataque da empenagem vertical, contornando a quilha dorsal, quando esta existia.

O leme de todas as aeronaves era pintado em verde (metade anterior) e amarelo (metade posterior), com o serial USAAF  da aeronave pintado em amarelo (aeronaves verde/cinza) ou preto (aeronaves em metal natural) na empenagem vertical. Esse número de série era pintado com a omissão do primeiro dígito e do hífen separador. Por exemplo, se o número de série USAAF da aeronave era 42-26450, o número pintado na cauda era 226450. Ainda usando este mesmo exemplo, ele indica que a aeronave foi a aeronave de número 26.450 a ser comprada pela USAAF com verba do Ano Fiscal de 1942 (e não necessariamente fabricada em 1942).

Diversas partes internas da aeronave, como porão de rodas, cofres de munição, cockpit e parte interna do capô do motor não eram pintadas com uma cor especifica, mas recebiam apenas uma camada de primer anticorrosão. Antes de entrarmos em detalhes, cabem algumas explicações sobre esse primer:

O primer utilizado nas aeronaves de fabricação americana era o Cromato de Zinco (Zinc Chromate), cuja finalidade era proteger as partes da corrosão e, por ser altamente tóxico, protegê-las ainda da proliferação de matéria orgânica. Sua formulação foi desenvolvida pela Ford Motor Company ao final da década de 20 e, posteriormente, passou a ser utilizado na indústria aeronáutica e pelo Corpo Aéreo do Exército dos Estados Unidos (USAAC) a partir de 1933. Por ser um produto cuja principal importância era a formulação química e não a cor final, sua cor podia variar conforme o local de produção (Ford, DuPont, Berry Brothers, etc) sem que a isso fosse dado importância. A cor "original" do Cromato de Zinco (ZnCrO4) usado como matéria prima para produção do primer, entretanto, pode ser descrita como um amarelo-esverdeado brilhante.

O primer, produto final, não era 100% opaco, tendo um certo grau de translucidez, o que fazia com que sua cor após a aplicação variasse também em função da cor da superfície sobre a qual foi aplicado, já que o mais comum era o primer ser aplicado em camada única. Era comum, também, que a esse primer fossem adicionados outros pigmentos. O uso do pigmento preto dava ao primer uma maior resistência aos raios ultravioleta e, consequentemente, maior resistência ao desgaste em áreas de maior exposição (cockpits, por exemplo). Dependendo do grau de pigmento adicionado, o tom do primer podia variar do verde claro até o verde escuro. Outras vezes, um pigmento era adicionado para dar um tom diferente ao primer, usando-o como uma segunda camada e ajudando a diferenciar locais com uma só mão de primer através da cor. Algumas dessas variações de cor acabaram sendo conhecidas por nomes específicos como "Yellow Zinc Chromate" (amarelo-esverdeado), "Green Zinc Chromate" ou "Interior Green" (verde claro), "Dark Dull Green" (verde escuro) e mesmo "Salmon Pink" (Cromato de Zinco misturado com pigmento vermelho, usado pela Vought). O Interior Green acabou sendo padronizado (ANA 611) devido à enorme quantidade de "verdes" que eram criados com misturas locais em proporções distintas.

No que se refere aos P-47D do 1ºGAvCA, em todas as aeronaves o porão de rodas e a parte interna das portas do trem de pouso eram recobertas com "Yellow Zinc Chromate", o mesmo ocorrendo com as caixas de munição nas asas e a parte interna de suas respectivas tampas. Não foi encontrada evidência fotográfica definitiva sobre a cor da parte interna da cobertura do motor. Inicialmente acreditava-se que seguiam o padrão Yellow Zinc Chromate, mas fotos coloridas de outros P-47 americanos em manutenção dão força à hipótese de que não eram pintadas em cor alguma, a parte interna da chapa ficando no próprio alumínio anodizado. 

Sobre a cor utilizada no cockpit, muitas das aeronaves hoje preservadas em museus levam a crer que os P-47D produzidos pela Republic tinham seus cockpits recobertos com "Green Zinc Chromate". Entretanto, peças não restauradas de P-47D da FAB preservados (Museu de Curitiba e Museu TAM, por exemplo) mostram uma cor verde-escura, correspondente ao "Dark Dull Green" já mencionado anteriormente.

Cor Código FS (aproximado) Código ANA
Olive Drab 34087/34088 613
Neutral Gray 36173 603
Yellow Zinc Chromate 33481 -
Green Zinc Chromate (Interior Green) 34151 611
Dark Dull Green 34092 -

Obs.: O código FS é mencionado apenas como uma referência auxiliar, já que na época essa classificação ainda não existia. Os códigos utilizados são os das cores que normalmente são consideradas como as que mais se aproximam.

Insígnias

Os P-47D do lote inicial recebido pelo 1° GAvCa já vieram dos EUA com as insíginias aplicadas segundo o padrão adotado pela Força Aérea Brasileira na época, ou seja, a insígnia da FAB sobre as superfícies superiores e inferiores de cada asa, o número de série na cauda e o leme pintado em verde e amarelo.  Após o início das operações, entretanto, ocorreram problemas de identificação de caças da FAB por desconhecimento das marcações brasileiras por parte de outros pilotos aliados, chegando a haver incidentes onde caças brasileiros quase foram atacados por caças aliados.

Foi decidido, então, que as insígnias dos caças da FAB seguiriam o padrão da USAF, facilitando sua identificação. A "star and bar" americana foi aplicada na fuselagem dos caças do 1° GAvCa (onde antes não havia insígnia alguma), bem como na superfície superior da asa esquerda e inferior da direita, com estrela da FAB aplicada sobre a estrela americana, sofrendo ligeira "deformação" para adaptar-se ao formato desta.

Versão original da estrela da FAB, era aplicada em quatro pontos nas asas, ou seja, nas superfícies inferiores e superiores de ambas as asas. Não era aplicada na fuselagem. Após a introdução da "star and bar" americana sob a estrela da FAB,ainda podia ser vista na superfície superior da asa direita e na inferior da asa esquerda de algumas aeronaves.

Versão mais comum da insígnia utilizada pelos caças do 1° GAvCa, nada mais era do que a "star and bar" da USAF onde, sobre a estrela americana, era aplicada a estrela da FAB. Era aplicada em ambos os lados da fuselagem, na superfície superior da asa esquerda e na superfície inferior da asas direita.

Versão caracterizada pela inclusão de uma borda azul ao redor da insígnia. Aplicada aos aviões não camuflados e que possuíam acabamento em metal natural, já que, contra um fundo metálico, a barra branca seria pouco visível sem as bordas azuis.

 

Apesar de uma certa padronização, é possível encontrar fotos com variações dessas aplicações como, por exemplo. a insígnia com borda azul num P-47D camuflado (A4 do Ten Torres), contorno branco em volta da estrela (A1 do Cap. Lafayette) ou a ausência do Cruzeiro do Sul na insígnia (D4 do Ten. Rui Moreira Lima). A distância da parte curva (interna) da barra branca ao circulo azul também sofria variações.

Afirmar se determinada aeronave tinha ou não esta ou aquela insígnia ou marcação pode ser uma pergunta difícil de responder sem fotografias de referência, sendo necessário também especificar uma data, já que é possível encontrar fotos da mesma aeronave com marcações diferentes em datas diferentes.

Códigos de Esquadrilha

Para facilitar a rápida identificação das aeronaves em combate ou mesmo no pátio de estacionamento, foi adotado um sistema alfanumérico de identificação o qual consistia em uma letra (de A a D), identificando a esquadrilha, seguida de um número (de 1 a 6) identificando a aeronave dentro da esquadrilha.

Letra Esquadrilha Líder no início da campanha
A Vermelha Cap. Av. Lafayette Cantarino Rodrigues de Souza (A1)
B Amarela Cap. Av. Joel Miranda (B1)
C Azul Cap. Av. Fortunato Câmara de Oliveira (C1)
D Verde Cap. Newton Lagares da Silva (D1)

Esse esquema tinha por base o utilizado nos demais esquadrões do 350th Fighter Group, que adotavam o mesmo esquema porém com um número (5, 6 ou 7) à frente da letra identificadora de esquadrilha. Esse número identificava o "Squadron" ao qual a aeronave pertencia. Por exemplo, o P-47 "6D5" pertencia ao 346th Fighter Squadron, sendo, dentro da esquadrilha "D", o 5º avião. Como o "Senta a Pua" era composto apenas por um "Squadron", o dígito antes do código de esquadrilha foi omitido. Caso não o tivesse sido, a identificação de nossos aviões seria, por exemplo, 1A1, 1D4, 1C5, etc...

Um número "1" pintado após a letra de esquadrilha identificava o líder da esquadrilha. Os demais números eram dados aos pilotos por ordem de antiguidade em serviço. As exceções a esse esquema eram as aeronaves do Ten.Cel.Av Nero Moura e do Maj. Oswaldo Pamplona Pinto, que não possuíam designação de esquadrilha, tendo aplicados apenas os números "1" (Nero Moura) e "2" (Pamplona).

O código alfanumérico de identificação de esquadrilha era aplicado nos dois lados da carenagem do motor, em branco nas aeronaves com camuflagem verde e cinza, e em preto nas aeronaves com acabamento em metal natural.

Aplicação da Bolacha do "Senta a Pua"

O Avestruz Guerreiro era aplicado na lateral direita dos P-47, logo atrás dos "cowl flaps". Criada pelo Cap. Fortunato Câmara de Oliveira durante a travessia dos EUA para a Itália, o "Avestruz Guerreiro" foi aplicado às aeronaves usando moldes (máscaras) feitos com chapas metálicas, moldes esses providenciados pelo Ten.Av. Pedro de Lima Mendes.

"Fora ele (Fortunato) quem, durante os dias ociosos da travessia no Colombie, compusera o emblema do Grupo com o avestruz que depois se tornaria célebre (...) E fora um outro piloto da mesma esquadrilha, o folclórico Limatão, quem labutara várias semanas em Tarquínia à testa de uma equipe de sargentos e soldados, manuseando moldes de lata recortada, para pintar o emblema nos narizes dos aviões"

(Brig. Luis Felipe Perdigão, no livro "Missão de Guerra")

Sobre a bolacha, vide artigo em A Origem Do Avestruz Guerreiro.

Outras Marcas

Os P-47 do 1° GAvCa tinham, normalmente, o nome de seu piloto "titular" pintado no lado esquerdo da fuselagem, logo abaixo do canopy. Abaixo no nome do piloto normalmente ficavam os nomes dos mecânicos da aeronave. Nas aeronaves com camuflagem em cinza e verde, esses nomes eram pintados em letras brancas. Nas que tinham acabamento em metal natural, eram pintados em preto. Em alguns casos, apenas o nome do piloto era pintado.

O número de missões efetuadas pelo piloto era marcado desenhando-se pequenas bombas também no lado esquerdo da fuselagem, logo abaixo no nome do piloto. Há, entretanto, pelo menos dois casos fotograficamente registrados de P-47D com essas marcas pintadas do lado direito da fuselagem: o "C5" do Ten.Av. Pedro de Lima e o 2º "B3" do Asp.Av. Raymundo da Costa Canário que tinha, inclusive, o nome do piloto pintado do mesmo lado. Agrupadas em conjuntos de cinco, essas pequenas bombas eram desenhadas a partir da bolacha do grupo, inicialmente em "pilhas" verticais. Mas conforme o número de missões aumentou, estas foram repintadas enfileiradas em direção à cauda da aeronave. Nas aeronaves com camuflagem em cinza e verde, as marcas de missão eram pintadas em amarelo. Nas que tinham acabamento em metal natural, eram pintadas em preto.

 

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